6.5.09
O Jornalista
Branca como um papel, ela pisca pra mim com aquele olho preto e comprido.
-Vai, fala.
Eu olho pra ela assustada, querendo pintar a branquela com risquinhos que façam sentido.
- Não sei por onde começar.
O resto do mundo, só espera que alguma coisa aconteça e ela, sabendo disso, fica me fitando. Praticamente me acusa de não saber é de nada. Sente-se o começo de tudo, a imagem do mundo. Pensa que pode mudar a história e ainda virar papel de verdade.
- Isso eu não aceito.
Ela olha os rabiscos que fiz e rejeita-os. Petulante como sempre, acha que não ficou bonita. Deixa passar algumas coisas, mas só pra ter argumento quando for preciso. Se ignorar suas frescuras consigo saturá-la de palavras. Dependendo da palavra, ganho uma nova branquela para rabiscar.
Prefiro a rua, o povo, o fato. Afinal, eles não precisam de espaço, só de tempo, de abstração. Esse senhor, o tempo, também apavora. Cada troca de número é um susto que avisa o fim. Melhor ignorá-lo também.
Embora tudo exista na palavra. A palavra nem sempre existe pra tudo.
- Srª Lauda, me perdoe, mas você e suas páginas estão se tornando a parte chata do processo.
Carolina Nogueira


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